Tudo aconteceu outra vez: festejamos a chegada de um novo ano, comemoramos nossos sucessos, lamentamos nossos fracassos, ou não... Enfim, tentamos contabilizar erros e acertos. Paramos por instantes, olhamos para trás, revemos nossas atitudes, projetos, progressos, ou a falta deles, para enxergar direito onde e por que erramos e talvez projetar adiante novas possibilidades de acerto. Mas festejamos, sempre festejamos!
De minha parte, comemoro mesmo o momento “pós-balanço-anual-da-minha-vida”. Credo! Que coisa mais maçante! É claro que temos que rever nosso caminhar e muitas vezes empreender mudanças, mas que seja este um processo salutar, sereno, criativo. E que recomecemos de uma vez!
Olha o que faz a mídia, por exemplo: toda ela nos convoca a revisar alucinadamente todos os fatos do ano que está terminando, exibindo exaustivamente aquelas retrospectivas dramáticas que até roubam o precioso tempo para aquela nossa introspectiva. Alguns meios midiáticos tentam algo mais “animadinho” e apresentam lá suas seleções e classificações: os mais elegantes do ano, os mais mal vestidos, os acidentes mais espetaculares, os crimes mais hediondos, os dez mais... os dez menos... Que coisa cansativa! E tem gente que gosta. Ficamos perplexos diante de uma tela, olhando, analisando e discutindo o que vai pelo mundo afora, muitas vezes bem distante de nós, buscando talvez um fato que nos inspire, que nos sacuda e nos assegure de que haverá mudanças e a vida pode melhorar.
É isso que fazemos. Tomamos distância, olhamos para longe só para ver o que está lá, mas não vamos a lugar algum a partir desse olhar. O novo ano começa, às vezes até sob nossas lamúrias: “Nada dá certo para mim! Deus não escuta minhas preces! Não dou sorte mesmo! Por que o Fulano pode e eu não?” – e seguimos no mesmo caminho. Ou então fazemos planos equivocados: “Esse ano vou passar a me vestir no estilo de Fulano, vou fazer o mesmo curso que meu colega fez, vou comprar um carro igual ao do meu vizinho”. Não seria mais prudente e produtivo termos vida própria e sermos nós mesmos?
Acredito mesmo que é simples assim. Aquele Fulano que deu certo, por exemplo, provavelmente não desperdiçou muito tempo diante da tevê olhando a vida dos outros passar, e enxergou a vida de outra maneira.