Houve um tempo em que fui fascinada pelo I-Ching. Comprei o livro com todas as informações sobre o oráculo, sua história e todas as orientações sobre como consultá-lo. Li tudo e parti para a prática. E viciei. Diariamente, em determinada hora, eu parava, me recolhia, “armava o circo” e ficava um bom tempo arrumando, escolhendo cartas, lendo presságios... Durante meses. Aquilo me confortava, me acalmava frente aos problemas de sempre – e só! Até que, nem sei como, “acordei” daquele “transe”. Acho que cansei da companhia dos probleminhas diários, indiferentes a todo aquele ritual e suas previsões enigmáticas; eu realmente não tinha que deixá-los habitar a minha vida sem prazo para irem embora. Comecei eu mesma a varrê-los um a um do meu quarto, da minha casa, da minha mente.
Nessa faxina, o I-Ching se foi também. E me dei conta da única verdade que aquele oráculo havia me transmitido: a tendência que temos à estagnação, a nos tornarmos reféns de fantasias, rotinas, verdades alheias e até de certas doenças. Se bem me lembro, uma das cartas representava isso mesmo: a imobilidade, a não reação diante dos fatos, a falta de iniciativa. De fato, muitas vezes aceitamos e mantemos uma situação por acreditarmos que estamos no caminho certo, que escolhemos o melhor, o mais vantajoso, e não percebemos que estamos parados, estagnados, cegos para todas as outras possibilidades. Repetimos diariamente a escolha de uma carta cuja mensagem vai ocupar nossos pensamentos e nos roubar o tempo precioso de olharmos para nós mesmos, para nossas vidas, para o que nos rodeia e que é real. Somos seduzidos pelo improvável e pensamos ter feito uma escolha, mas na verdade foi o improvável que nos escolheu. (Mas não somos vítimas coitadinhas – nós o permitimos, é mais cômodo).
Não estou afirmando, no entanto, que repetição é sinônimo de estagnação. Podemos descobrir novos sentidos cada vez que relemos um bom livro, ou experimentar uma nova alegria cada vez que buscamos nossos filhos na escola. É a repetição exaustiva que muitas vezes leva o atleta à perfeição, à quebra de mais um recorde. É saudável repetir quando significa seguir em frente, aprimorar-se, buscar o melhor. É o que a vida espera de nós.