É um privilégio morar numa casa com quintal – terra fresca, pedregulhos, canteiros, calçadinhas aqui e ali, árvores pingando suas folhas, calor e brisa secando as roupas, borboletas visitando as flores, e a vida, o fazer da casa no vai-e-vem da lida diária.
Um quintal tem muitos caminhos. É outra dimensão do mundo. Nele se completa a convivência familiar, criam-se filhos, inventam-se brincadeiras, acolhem-se os melhores amigos, repousa-se em segurança, plantam-se sonhos – parece existir ali uma fonte de vida que humaniza toda a casa.
Nestes dias estive por muitas horas trabalhando no meu quintal. Fui para lá lavar uma roupa, olhar uma plantinha, limpar e arrumar umas coisas antigas e esquecidas... E me perdi por lá, nas lembranças da infância em outros quintais, de meu pai remexendo as plantas, de colher frutas no pé, brincar com o cachorro, ouvir as conversas dos mais velhos sobre outras infâncias. Impagável.
Numa dessas tardes, meus sobrinhos encheram outra vez o quintal dessa infância gostosa. Já não tem mais cachorro nem tanta fruta no pé, mas um jogo de bola fez a festa. A gargalhada sonora, os olhos brilhando e o estampido da bola contra o muro – mas era um chute para o infinito, que aquele momento era eterno.
Imagino outras crianças como meus sobrinhos, “crianças de apartamento”, que não têm a chance de viver momentos assim, para as quais restam um chão liso e frio e uma janela alta com grade de onde mal se vê um pedaço do mundo. Que é feito de suas infâncias? Não sei. Mas penso que se existissem mais quintais, não haveria tantos jovens e adultos de alma doente, inábeis para amar e viver em sociedade.



