ECLIPSE LUNAR
Pois ali está, no meio da noite, a Lua. É mesmo um lago de prata, com vagas sombras cinzentas – sombras de árvores, de barcos, de aves aquáticas... O céu está muito límpido, e é puro o brilho das estrelas. Mas em breve se reproduzirá o eclipse.
E, então, pouco a pouco, o luminoso contorno vai sendo perturbado pela escuridão. A Terra, esta nossa misteriosa morada, vai projetando sua forma naquele redondo espelho. Muito lentamente sobe a mancha negra sobre aquela cintilante claridade. É mesmo um dragão de trevas que vai calmamente bebendo aquela água tão clara; devorando, pétala por pétala, aquela flor tranqüila.
E o globo da Lua, num dado momento, parece roxo, sanguíneo, como um vaso de sangue. Que singular metamorfose, e que triste símbolo! Ali vemos a Terra, melancolicamente reproduzida na apagada limpidez da Lua. Ali estamos com estas lutas, estes males, ambições, cóleras, sangue. Ali estamos projetados! E poderíamos pensar, um momento, na sombra amarga que somos. Sombra imensa. Mancha sanguínea. (Por que insistimos em ser assim?)
Ah! – mas o eclipse passa. Recupera-se a Lua, mais brilhante do que nunca. Parece até purificada.
(Brilharemos um dia também com maior brilho? Perderemos para sempre este peso de treva?)
(Cecília Meireles, Escolha o Seu Sonho, pág. 88, Distribuidora Record, Rio, 1966)
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